Indígena Potiguara e Pesquisador.
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Para quem nunca ouviu falar dessa expressão, deixe-me explicar. Nero foi um tirano do Império Romano que se deleitava com o sofrimento humano. Regozijava-se ao assistir e promover a tortura dos cristãos em seus espetáculos de horror. Incendiava corpos, lançava inocentes às feras, iluminava as ruas da velha Roma com milhares de vidas queimadas — tudo para satisfazer o ego de um ditador infame. Esse capítulo sombrio da história ficou conhecido como o Circo de Nero.
Talvez você se pergunte o que isso tem a ver com o território Potiguara e como essa ferida antiga da humanidade nos diz respeito. A resposta é simples e dolorosa: nós também tivemos nosso próprio Nero, não na velha Roma, mas aqui, entre os Potiguara. Em meio a gritos de dor, casas queimadas, famílias destroçadas e a fumaça da injustiça, ergueu-se outro circo de horror — o circo da família Lundgren.
Pouco a pouco, eles invadiam, roubavam, estupravam, matavam e destruíam. Queriam apagar até o último vestígio da valorosa nação Potiguara. Tudo em nome de quê? Da velha máscara da “civilização” e do monstro que chamam “desenvolvimento”. A eles, dinheiro e riquezas; a nós, dor e devastação. Assim nasceu o Circo dos Lundgren.
Depois de muitas lutas e perdas, homens e mulheres sacrificaram-se para que seus descendentes pudessem usufruir do território e carregar com dignidade o nome Potiguara. Enfrentaram as usinas, resistiram à invasão canavieira, sofreram prisões e torturas, como Severino Fernandes, Daniel Santana, Pedro Ciríaco, Domingos Barbosa, Vicentino e tantos outros. Muitos morreram — abatidos como animais — no altar do poder e da ambição. E poucos hoje lembram os nomes desses que foram arrastados, contra a própria vontade, para o palco desse circo cruel.
Mas hoje, vergonhosamente, muitos caminham de mãos dadas com a destruição do território. Tornaram-se escravos livres e sorridentes das mesmas usinas que assassinaram e perseguiram nossa gente. Antes, líderes lutavam para defender o povo; agora, muitos defendem apenas seus próprios interesses. Loteiam terras que não lhes pertencem, vendem-nas a preço de bananas podres, e quando vão a Brasília, diante das câmeras, se apresentam como defensores da natureza, inimigos do agronegócio, protetores das florestas — enquanto trabalham para o agronegócio e destroem as mesmas florestas e rios que juram proteger.
A extração ilegal de areia é outro capítulo desse desastre. Retirada em quantidades absurdas de áreas indígenas, vendida para a construção civil, utilizada nas obras da Prefeitura de Baía da Traição e comercializada em casas de materiais de construção. E o que fazem nossas lideranças diante disso? Nada. Absolutamente nada.
Em cada canto da cidade, em cada obra particular, em cada depósito ou pavimentação, lá está a areia arrancada da minha Aldeia São Miguel e de tantas outras. Vivemos sob a ditadura dos Lima, onde quem critica é perseguido, e onde ele faz o que quer nas aldeias Potiguara — amparado por uma pequena parte de caciques corruptos, traidores de seu próprio povo, amantes do dinheiro e protagonistas do grande circo em que a casa grande do tirano se ilumina com a destruição das aldeias e o fogo sobre os corpos de nossos parentes.
Estamos vivendo novamente o que vivemos com os Lundgren, mas desta vez é pior: agora eles têm o aval de lideranças indígenas corruptas — traidores da nossa nação Potiguara. E quem ousa se levantar corre o risco de sofrer o que eu, Ezequiel Maria, estou sofrendo: perseguição e ameaça de morte por defender meu próprio povo.
Mas lembremos: Potiguara é guerreiro. Precisamos nos erguer e lutar novamente.
Que vergonha devem sentir nossos antepassados; que vergonha sentem os que lutaram antes de nós.
Não servirá COP30, nem qualquer evento mundial, se nós mesmos não tomarmos as rédeas da nossa história e nos rebelarmos contra essa tirania.
Somos filhos de homens e mulheres livres. Não nascemos escravos — e por isso não devemos nos comportar como tais.
Estão destruindo o território Potiguara, e os órgãos indigenistas nada dizem.
Traidor do território é traidor do povo Potiguara.
Quem se vende ao não indígena, ao invasor, jamais defenderá sua gente quando o território for atacado.
Ergamo-nos.

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