O ralo do saneamento: Brasil desperdiça quase 40% da água tratada enquanto milhões passam sede


É inadmissível que um país com a riqueza hídrica do Brasil assista passivamente ao desperdício de quase 40% de toda a água que é tratada a custos elevadíssimos. Enquanto a infraestrutura de distribuição falha e deixa o recurso vazar pelo caminho, milhões de brasileiros continuam sem o básico: água encanada e limpa na torneira. Tratar o saneamento com amadorismo e lentidão não é apenas uma falha de gestão; é um desrespeito com o bolso do contribuinte e uma grave barreira para o desenvolvimento social.

O que aconteceu?

Segundo o "Estudo de Perdas de Água 2026", divulgado nesta terça-feira (2), o Brasil perdeu exatamente 39,53% da água tratada durante o processo de distribuição no ano de 2024. O levantamento foi elaborado pelo Instituto Trata Brasil (ITB) em parceria com a consultoria GO Associados, utilizando dados do SINISA (2024).

Os dados revelam que o volume desperdiçado por conta de vazamentos nas redes, falhas de medição e consumos não autorizados chegou a 4,4 bilhões de metros cúbicos. Para se ter uma ideia da gravidade, esse montante equivale ao esvaziamento diário de 4,8 mil piscinas olímpicas ou a 4,5 vezes o volume total do Sistema Cantareira em um ano. O volume jogado fora seria suficiente para abastecer 77 milhões de brasileiros por um ano — número que supera em mais de duas vezes o total de pessoas que hoje sequer têm acesso à água tratada no país, estimado em 33 milhões.

Nossa Análise

A lentidão crônica na redução de perdas: O avanço rumo à eficiência ocorre a passos de tartaruga. Em 2020, o índice de desperdício nacional era de 40,14% e, após quatro anos, caiu para os atuais 39,53%. Essa redução residual mostra que o país continua a anos-luz de distância de atingir a meta nacional, estipulada em 25%.

O custo invisível cobrado na tarifa: Segundo explicou a presidente do ITB, Luana Pretto, o combate ao desperdício traz um impacto financeiro direto para o cidadão. Quando as empresas de saneamento reduzem os vazamentos físicos, gasta-se menos energia elétrica com bombeamento e menos produtos químicos nas estações de tratamento. Consequentemente, o custo operacional cai, abrindo espaço para taxas mais justas na conta de luz e água do consumidor.

Desigualdade e retrocesso regional: O estudo evidencia que o saneamento no Brasil caminha em duas velocidades completamente distintas. Enquanto estados do Centro-Oeste e Sudeste registram os melhores índices de eficiência — como o Piauí, que lidera positivamente com apenas 24,61% de perdas —, o Norte e o Nordeste amargam os piores resultados. No corte regional, o Nordeste registrou a maior piora entre 2020 e 2024, aumentando seu desperdício em 0,46 ponto percentual.

Municípios e capitais longe da meta: A desorganização reflete-se na ponta administrativa. Das 27 capitais brasileiras, apenas quatro (Goiânia, São Paulo, Campo Grande e Teresina) conseguiram cumprir a meta de perdas inferiores a 25%. No universo dos 100 municípios mais populosos do país, a imensa maioria falhou em cumprir os parâmetros técnicos de redução estabelecidos pela legislação federal.

Contexto Local / Impacto na Paraíba

A nossa realidade na Paraíba é preocupante e exige cobrança firme das autoridades locais. De acordo com o ranking oficial dos estados, a Paraíba apresenta um índice de perdas na distribuição de 44,00%. Isso significa que o nosso estado joga fora quase metade da água que limpa e armazena, situando-se bem acima da já alarmante média nacional de 39,53%. Em uma região que convive historicamente com a escassez hídrica, secas recorrentes e racionamentos severos, permitir que quase 44% da água suma pelos canos por falta de manutenção e investimentos da concessionária é um contrassenso econômico e social que pune diretamente as famílias paraibanas.

Conclusão do Blog da Raquel Lima

Não há justificativa aceitável para que o Brasil e a Paraíba continuem tratando a água — um bem tão precioso — com tamanho desleixo técnico. Reduzir perdas e modernizar as tubulações antigas é o único caminho viável para universalizar o saneamento sem encarecer a tarifa e sem esgotar os nossos rios e mananciais. Investimento sério requer planejamento, tecnologia e fiscalização rigorosa dos contratos, porque na gestão dos recursos públicos a regra é clara: o certo é certo, e o errado é errado. Chega de ver o dinheiro e a água do povo escorrerem pelo ralo.


Fonte: Instituto Trata Brasil / GO Associados (Estudo de Perdas de Água 2026).

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